quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sofrível

Tudo o que aconteceu ontem à noite no Ellis Park era previsível.

Antes do jogo, problemas na entrada da torcida, com o abastecimento de energia e greve de funcionários - fatos já corriqueiros na Copa da África do Sul. Durante o jogo, um futebol medíocre, contra um time medíocre (embora melhor do que se esperava), e um resultado medíocre. Após a partida, entrevistas óbvias de Dunga, que deve ter visto outro jogo. E, claro, com as suas tradicionais patadas em jornalistas (os inimigos da pátria).

Houve mais, mas na tarde brasileira: o meu desinteresse no jogo do Brasil. Que os jogos do meu time são muito mais importantes que os da Seleção, já não era novidade (com certeza isso acontece com quase todos aqueles que torcem de verdade para algum time de futebol). Mas ficou comprovado que, pelo menos eu e meus amigos, damos mais importância para a Copa do Mundo em si e o clima de festa do que para os jogos do Brasil.

Não torço contra, longe disso. Mas também não me empolgo. Acredito que, conforme a competição avance, meu interesse vá aumentar. Só que, definitivamente, não ficarei muito triste se perder, do mesmo modo que não terei uma alegria suprema se ganhar.

O engraçado é que a consequência disso foi, de certa forma, boa: consigo curtir um torneio de futebol - o maior de todos - como mero espectador, torcendo apenas por um bom jogo, sem ficar nervoso torcendo contra ou a favor determinado time, já que o resultado final, no fundo, não importa muito.

Tomara que a coisa volte a ser como já foi.

Digressões à parte, a minhas notas da partida:

- A entrevista do Luis Fabiano, após o jogo. Mesmo seguindo a cartilha dunguiana de amor ao grupo e à pátria, o camisa 9 não conseguiu esconder as emoções. Estava transtornado com mais uma má atuação, contrastada com a boa entrada de Nilmar. Ele sabe que, se a coisa não mudar logo, corre sério risco de perder a posição. O gato subiu no telhado para ele.

- Elano, que não cheira nem fede, deu um passe pra gol e fez outro. Em uma seleção como essa de Dunga, jogadores como Elano acabam tendo mais importância do que deveriam.

- Um lateral direito brasileiro não marcava em uma Copa desde aquela pintura de Josimar, contra a Polônia em 1986. O gol de Maicon não foi tão bonito, mas não deixa de ter uma pequena semelhança. Ouça e veja aqui na narração de Luciano do Valle.

Ficha técnica do jogo (do Blog do PVC):

15/junho/2010
BRASIL 2 x 1 COREIA DO NORTE Local: Ellis Park (Johanesburgo); Juiz: Viktor Kassai (Hungria); Público: Gols: Maicon 9, Elano 27, Yum Nam 43 do 2º; Cartão amarelo: Ramires

BRASIL: 1. Júlio César (5), 2. Maicon (7,5), 3. Lúcio (5), 4. Juan (7) e 6. Michel Bastos (5); 8. Gilberto Silva (5,5), 5. Felipe Melo (6) (18. Ramires 39 do 2º (sem nota)); 7. Elano (6,5) (13. Daniel Alves 26 do 2º (sem nota)), 10. Kaká (4,5) (21. Nilmar 33 do 2º (6)) e 11. Robinho (7); 9. Luís Fabiano (5). Técnico: Dunga

COREIA DO NORTE: 1. Myung Guk (6), 2. Cha Jong (6,5), 13. Chol Jin (5,5), 3. Jun Il (5,5), 5. Kwan Chon (5) e 8. Yun Nam (5); 17. Jong Hak (5), 11. In Guk (4,5) (6. Kim Kul 34 do 2o (sem nota)) e 4. Nam Chol (4,5); 10. Hong Jong (5,5) e 9. Tae Se (6). Técnico: Kim John Huh

Homem do jogo FIFA – Maicon

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Capítulo XIX

Antes da Copa de 1986, uma pergunta esperava para ser respondida: quem era melhor, Platini ou Maradona?

O francês era a grande jogador europeu do momento. Já tinha ganho três Bolas de Ouro, uma Eurocopa com a França e o título europeu com a Juventus. Muitos apostavam que ele ajudaria seu país a vencer sua primeira Copa. Um cavalheiro, dentro e fora dos gramados.

Enquanto isso, "El Diez" (que ainda não era chamado assim) não tinha grandes conquistas pessoais ou coletivas. Amargara um fracasso no Barcelona e ainda não se firmara no Napoli. Brigas e confusões já preenchiam páginas da sua biografia.

Bem... sete jogos, algumas atuações antológicas e uma taça depois, não restava mais dúvida. Maradona virara mito, e qualquer comparação entre os dois hoje parece piada.

Esse é o peso que carrega uma Copa do Mundo, que começou hoje na África do Sul.

Privilégio poder ver a história sendo escrita diante de nossos olhos.

Previsões, promessas e planejamentos não valerão nada se não se comprovarem no próximo mês. Se é justo ou não, que apenas sete jogos tenham tanta importância, é outra história. O fato é que é assim.

Terá Dunga acertado em suas convicções e, mais uma vez, calado - e xingado - os críticos? O tal futebol força terá prevalecido sobre o arte? Nossos jogadores são mesmo craques? Ou, como todos nós temos dito, terá a nossa Seleção sido vítima da teimosia do técnico e incompetênciados jogadores?

Saberemos disso tudo no dia 11 de julho. Então, teremos novos ídolos, vilões e momentos memoráveis da história do futebol.

Mais um capítulo terá sido escrito.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sem surpresa

O que já era esperado fica cada vez mais claro: o Morumbi não sediará jogos da Copa 2014. Tanto a Folha como o Estado de S. Paulo (este último, bancando a informação desde abril) já dão como certo o descarte do estádio.

O desejo por uma nova arena é grande demais para que ela não saia do papel.

Para mim, a estratégia do São Paulo FC foi a seguinte: "enrolar" a CBF e a FIFA com promessas que, na verdade, sabia que não poderia cumprir, até que se chegasse num ponto tarde demais para o início das obras de um novo estádio, sobrando o Morumbi como única opção para a Copa - e possivelmente a abertura e outros jogos importantes, devido à importância econômica da cidade.

Os prepotentes dirigentes tricolores só não contavam com uma postura ainda mais dura do outro lado, motivada pela falta de caráter dos responsáveis pela Copa e, como já dito, a inabalável convicção na construção de um novo - e desnecessário - estádio em São Paulo. Pois, desde o início, esse era o "Plano A" para os donos da Copa-2014

O São Paulo tentou passar a perna em Ricardo Teixeira & Cia., mas levou um contra-ataque e acabou com as costas estateladas no tatame (isso tudo, claro, se as notícias sobre o assunto se confirmarem, o que acredito).

Opinião do torcedor: já escrevi aqui o que acho do Morumbi na Copa, mas vou resumir. É um estádio ruim, desconfortável, mas o único que temos. Transformá-lo em uma Alianz Arena, ou algo parecido, consumiria uma cifra enorme de dinheiro, e como meu time já amargou períodos de fila por causa da construção e reforma de seu estádio, sou contra esta empreitada. Meu orgulho não será afetado pelo fato do Morumbi receber ou não jogos da Copa, pois ficaria mais alegre se a boa fase dos últimos anos fosse mantida. E tem outra: eu queria que os dirigentes do meu time do coração se preocupassem em arrumar o estádio para NÓS, TORCEDORES DO SÃO PAULO, que sofremos a cada jogo do Tricolor com a estrutura inadequada do Morumbi, e não para que seus egos fossem ainda mais inflados com uma foto na parede, mostrando para o mundo todo a "grandeza" do SPFC em sediar uma Copa do Mundo. Nós, torcedores, merecemos coisa melhor pelo simples fato de sermos torcedores.

Opinião do cidadão: devido à completa imbecilidade que é construir um novo estádio em São Paulo, o Brasil deveria bater de frente com a FIFA e bancar o Morumbi como estádio da cidade para a Copa, com as reformas suficientes - e viáveis - para torná-lo um estádio melhor. Afinal, todos sabemos como será contada essa história: super-faturamento, atrasos, licitações canceladas e mais um elefante branco bancado pelo Estado - nesse caso, o Pacaembu, pois já sabemos o destino dessa nova arena.

Nós pagaremos por tudo isso, pois somos trouxas o bastante.

Atualização em 16/06: a CBF soltou hoje nota oficial excluindo de vez o Morumbi da Copa 2014, apenas oficializando o que já era cantado há tempos.

A Copa no Brasil vai, cada vez mais, se tornando uma ação entre amigos.

Abaixo, a nota:

"Não foram entregues ao Comitê Organizador Local da Copa do Mundo de 2014 (COL) por parte do Comitê Local da cidade de São Paulo, as garantias financeiras referentes ao projeto do estádio do Morumbi aprovado pelo COL/FIFA no dia 14 de maiso de 2010.

O Comitê da Cidade de São Paulo enviou ao COL um sexto projeto, que não será examinado.

Sendo assim, fica excluído do projeto da Copa do Mundo de 2014 o Estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi."

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Isso é Libertadores


A Libertadores desse ano está sensacional. Me arrisco a dizer que é a melhor dos últimos tempos, se não em nível técnico, pelo menos em emoção. Basta lembrarmos de alguns confrontos que tivemos até agora:

Chivas x Vélez: os mexicanos fizeram 3x0 na ida, e na volta quase que os centenários argentinos devolvem o placar, com direito a gol no fim do jogo.

Universitário x São Paulo: confronto de nível técnico sofrível, mas a decisão por pênaltis no Morumbi encerrou dramaticamente o confronto.

Banfield x Inter: com jogador expulso e desvantagem de 1x3, o Colorado conseguiu reverter o resultado em Porto Alegre.

Flamengo x Corinthians: quase 50 milhões de torcedores pararam para assistir o duelo que teve final épico.

Alianza Lima x Universidad Chile: mesmo perdendo em casa, os peruanos quase conquistaram a vaga no Chile, com direito a gol polêmico no final.

E isso foi só as oitavas de final. Nas quartas, o São Paulo recuperou a autoridade perdida nos últimos anos e se vingou do Cruzeiro com sobras; e o Chivas repetiu as oitavas, em um 3x2 agregado contra o Libertad.

Mas foi a noite de ontem que mostrou, de verdade, o que é Libertadores.

Em dois confrontos memoráveis, com frio, pressão da torcida e indecisão até os últimos minutos, Inter e Flamengo tiveram destinos opostos na competição. Os gaúchos, com inteligência, souberam administrar a partida e com um golpe mortal aos 43 do 2o tempo, eliminaram os atuais campeões Estudiantes, do monstro Verón. Como é típico de nossos hermanos, o jogo terminou em pancadaria, tornada ainda mais medíocre devido ao goleiro reserva do Inter, Lauro. Briga entre atletas profissionais é lamentável, mas a covardia é pior ainda. O cara sai do banco, acerta o Desábato pelas costas e sai correndo pro vestiário. Se é macho pra bater, que seja macho pra apanhar também. E a imprensa brasileira, mais ufanista ainda em ano de Copa, cansou de condebar o zagueiro argentino, sem dar muita bola ao goleiro. Ridículo.

Agora, o Inter terá novamente o São Paulo pela frente, mas com Fernandão do outro lado. Imperdível.

Em Santiago, o acanhado e orgânico estádio de Santa Laura pulsava. E o Flamengo que parecia morto ficou vivo até os segundos finais. A festa chilena no golaço de Montillo foi daquelas coisas que te fazem levantar do sofá (exceto rubro-negros, claro), enquanto o silêncio após o gol do Adriano levou as unhas à boca. A chuva de pedras, pilhas e bolas de golfe, ao contrário, dão vergonha até em nós brasileiros, por fazermos parte de um torneio que consegue ser tão sensacional e medieval ao mesmo tempo.

Chivas, Universidad de Chile, Inter e São Paulo seguem na briga.

Uma "pena" que, antes do grand finale, temos toda uma Copa do Mundo pela frente...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Do blog do Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira, da ESPN, é o jornalista esportivo mais ranzinza do Brasil - e por isso mesmo, um dos meus favoritos. Abaixo, um post dele publicado hoje em seu blog (grifos meus):

"Dunga sorri na Globo. Coerente ou subserviente e intransigente?

Não vou discutir nomes, afinal, Dunga é "coerente". Tanto que não chamou Paulo Henrique Ganso e Neymar por terem sido reservas no Santos em jogos no Brasileirão 2009. Mas convocou Doni, Júlio Baptista e Kléberson, que são suplentes hoje! Tão "coerente" que alegou não poder levar os santistas porque não foram testados. Mas incluiu o meia na lista de espera. E chamou Grafite, que atuou só 26 minutos em sua equipe.

Bobagem discutir nomes quando o aspecto técnico não importa tanto. Para Dunga, o que vale é "paixão", "emoção", "o sonho de vestir a camisa da seleção", "ser patriota". Opa, alto lá. Patriota? Então quem não torce loucamente pelo time da CBF é menos brasileiro do que aqueles que se descabelam pelo dunguismo? Não, essa eu não aceito, professor.

Se a turma do panetone passar a Copa vestida de amarelo e festejando cada gol, isso não fará desses elementos bons brasileiros. Pátria de chuteiras em pleno século 21? O mesmo discurso quatro décadas depois? Não, obrigado. Seleção é apenas um time de futebol. Ninguém é obrigado a torcer por ela, tampouco pode ser atacado por não adotar tal comportamento. Jornalistas devem informar e analisar. Imprensa não existe para apoiar nada, e ninguém dá resposta aos críticos.

A seleção da CBF não é "a" favorita ao título, mas apenas uma das equipes com chances. As escolhas de Dunga foram pela dedicação, que em alguns casos pode ser entendida como subserviência. Sim, prioridade para os cordatos que se deixam levar pelo discurso tacanho do técnico que a CBF criou. Falta talento. Com Ronaldinho Gaúcho e Ganso nos lugares de Michel Bastos e Kléberson, por exemplo, ele poderia mudar os rumos de uma partida.

Mas a inflexibilidade impede Dunga de rever conceitos. Não em todos os terrenos. Quando assumiu a seleção da CBF, ele assegurou que não haveria privilégios a jogadores, tampouco a veículos de comunicação. Dunga esteve no Bola da Vez da ESPN Brasil. Chamado a retornar, recusou. Outras TVs, rádios, jornais, revistas e sites gostariam de entrevistá-lo com mais tempo. Nada feito.

Mas concedeu uma exclusiva ao canal Sportv há alguns meses, e após a convocação apareceu no Jornal Nacional. Durante sete minutos, respondeu perguntas. Deu mais ênfase às reações emocionais dos jogadores do que ao desempenho técnico. E sorriu. Dunga estava em casa. Claro, sabia que ali ninguém lhe faria questionamentos de difícil resposta e com chance de réplica, algo que não acontece nas coletivas organizadas pela CBF.

O treinador parece viver num universo paralelo, só dele. Fala sobre uma volta da paixão do torcedor e de um desejo dos atletas de jogarem pela sua seleção como se isso fosse algo novo. Quantos renunciaram à convocação de Parreira em 2006? Todos os por ele chamados estiveram na Alemanha. O que houve foi bagunça há quatro anos, graças à permissividade geral, inclusive de Américo Faria e Ricardo Teixeira, até hoje na CBF, ao lado de Dunga, que ignora tal "detalhe".

Jogadores de nível técnico discutível veem a seleção como algo distante e, quando dentro dela, aceitam o que lhes é imposto, seja o que for. A lista de Dunga está cheia de gente assim, daí o comportamento tão elogiado. Até porque, para ele, jogar bola não é o mais importante. Pesa mesmo a capacidade de aceitar o discurso que parece extraído de um livro de auto-ajuda.

Coerência? Não me parece esta a palavra que marque a atual 'Era'. Que tal contradição, subserviência e intransigência?"

Nota Esporte Brasilis: Dunga é mesmo brasileiro. Como é comum entre os nossos, segue à risca a postura do "tudo ou nada", "certo ou errado", como se não pudesse haver um meio-termo nas coisas, e com a sua intransigência não admite uma revisão de seus pontos de vista. Dessa forma, reinventa à sua maneira o termo "comprometimento" e exclui dele qualquer possibilidade de combinação com talento. Joga para a torcida, covenientemente "patriota" em ano de Copa do Mundo.

E como foi chata sua entrevista ao Jornal Nacional...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Convocação comparada



Com a convocação de Dunga para a Copa-2010, volto aos trabalhos aqui no Esporte Brasilis.
Fazer uma análise dos selecionados, nome por nome, indicando limitações e variações possíveis, será ficar no lugar-comum. Todo mundo já imaginava que a lista viria desse jeito, com a transpiração encobrindo o talento, sacramentando a "seleção-monobloco" que veremos na África, com pouco espaço para surpresas - a não ser, claro, a convocação de Grafite, e as quase certas ausências de Ganso e Neymar.

Vou fazer algo diferente, ou pelo menos uma análise que ainda não vi por aí.

O futebol brasileiro vive uma entre-safra de jogadores, algo normal ao final de um período vitorioso, repleto de craques, como foi a geração 98-06. Por mais que Dunga tenha deixado nomes interessantes de fora da Copa, as opções realmente não eram muitas. A última vez que vivenciamos fase semelhante foi, na minha opinião, nas Copas de 90-94. Naquela época, vimos a aposentadoria de uma geração absurda que, mesmo não tendo vencido uma Copa, tinha uma qualidade indiscutível. Após as derrotas de 82 e 86, tivemos a atuação melancólica em 1990, com uma das piores Seleções Brasileiras de todos os tempos (em uma das piores Copas de todos os tempos); e, quatro anos depois, vencemos nos EUA, com boa parte do elenco pertencente à "Era Dunga", e outra mais nova que integraria a futura geração.

Sim, o time de 94 foi campeão, com méritos, não se discute; mas, que dentre todos os campeões mundiais, o time do Parreira foi um dos menos brilhantes, também é ponto pacífico. E, exceção feita a alguns grandes nomes daquele time, também o considero parte da entre-safra 90-94. Com a coincidência fundamental de ambos terem em Dunga um líder, a comparação entre os dois elencos acaba sendo um exercício interessante.


No gol, Júlio César é incomparavelmente melhor que Taffarel. Por mais que falem que o gaúcho era um craque, principalmente em sua fase de Internacional, eu cansei de sofrer com sua inconstância. Porém, na reserva, Gilmar e Zetti também estavam alguns níveis acima de Gomes e Doni (!!!!).

Na lateral direita, a briga é mais dura. Jorginho e Cafu têm mais nome e história, mas Maicon e Daniel Alves têm potencial para fazer bonito com a camisa da Seleção. Para não deixar o saudosismo influenciar a análise, dá empate. Já na esquerda, 94 fica na frente de novo. Prefiro Branco e Leonardo a Michel Bastos e Gilberto, e a maioria deve ter a mesma opinião.

A zaga também tem boa disputa. Depois dos cortes, a Seleção do Tetra contava com Ricardo Rocha, Aldair, Márcio Santos e Ronaldão, e mesmo a com a dupla titular formada às vésperas da Copa, tivemos uma excelente defesa. Seria fácil deixar Lúcio, Juan, Luisão e Thiago Silva um pouco atrás, mas de novo concedo empate aos dois grupos.

Até agora, comparando as duas defesas, temos um empate técnico. O problema aparece do meio pra frente.

Os três volantes de 94 (foram convocados 22 jogadores) - Dunga, Mauro Silva e Mazinho - tinham estilo parecido aos quatro de 2010 - Gilberto Silva, Felipe Melo, Josué e Kléberson. Mas eram melhores. Por mais que Dunga tenha estigmatizado negativamente toda uma geração de jogadores, sua evolução de 90 para 94 foi notável, e sua importância para o título, incontestável. Mauro Silva era outro volante pesadão, compensado pela maior mobilidade de Mazinho (grande jogador). Gilberto e Felipe, além de não terem os mesmo recursos, estão em péssima fase, e Josué, mesmo tendo brilhado no São Paulo e na Alemanha, não me parece à altura - sem trocadilho - de uma Copa do Mundo. Kléberson brilhou em 2002, e só. Nunca mais mostrou bom futebol, onde quer que tenha jogado. Ponto para 94.

Os meias de 94 foram Zinho, Raí e Paulo Sérgio. Como Zinho foi mal aproveitado no esquema retranqueiro daquele ano e Raí chegou em má fase, a impressão que passa é de pouca qualidade no setor. Mas quem se lembra dos dois jogadores jogando em sues clubes sabe que não era bem assim. Kaká tem mais futebol que Raí, mas também chega em má fase. Ramires joga muita bola, mas deixo para os cruzeirenses decidirem se é melhor que Zinho. E Elano e Júlio Baptista nem meias são. A meu ver, 2010 tem ainda menos opções que 94, ainda mais se considerarmos o próximo parágrafo.

Chega a ser covardia comparar os cinco atacantes do Tetra com os quatro do Hexa (será?). Afinal, os fenômenos Romário e Ronaldo, os incríveis Bebeto e Muller e o gozador Viola dão de goleada no "mamãe-quero-ser-grande" Robinho, nos bons Luis Fabiano e Nilmar e no inexplicável Grafite.

Se nos outros setores os dois times chegam a se equivaler, o ataque desfaz qualquer dúvida e desempata a disputa - com certa folga, até - em favor da Seleção de 1994.

Joga a favor de Dunga o fato de que os jogadores à disposição não permitiam a ele montar um time espetacular; mas sua teimosia, falta de conhecimento de futebol e "critérios" tornaram a Seleção de 2010 um time ainda pior do que teria sido em condições normais.

A Copa fica mais perto, palpável, a cada dia.

O Brasil é um dos grandes favoritos ao título na África do Sul.

Mas vai ser duro.

E feio.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O mundo corprativo

Quem vive o selvagem mundo corporativo sabe como ele funciona. Mesmo com o indiscutível peso da competência, a incompetência sempre consegue ser relevada - e premiada - se algumas atitudes forem observadas:

Bajular pessoas importantes;

Dizer para essas pessoas exatamente o que elas querem ouvir, na hora certa;

Camuflar os próprios erros;

Exaltar os acertos;

Passar por cima dos outros, se necessário.

Eu não sei qual a estratégia de Carlos Eugênio Simon, apenas que ela funciona. Só isso explica como um árbitro com tantos erros graves no currículo, que pairam bem próximos ao limite do mal preparo e do mal caráter, consegue ir a sua terceira Copa do Mundo.

A boa notícia é que ele não apitará jogos do Brasil.

"Descensura" olímpica

Conforme divulgado ontem na mídia, o COB voltou atrás em sua decisão de censurar o livro da Profa. Kátia Rubio (a capa da obra é reproduzida acima).

Gostaria que isso acontecesse também com o processo das contas do Pan-2007, parado no TCU, mesmo com diversos e gritantes indícios de irregularidades.

Mas, nesse caso, acho que vai ficar por isso mesmo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Censura olímpíca - II

Do blog do José Cruz, segue entrevista com a Profa. Katia Rubio:

"José Cruz – Qual o conteúdo de sua obra?

Katia – É uma obra inédita no Brasil, produzida para crianças e jovens, sobre educação olímpica, para ser trabalhada em um projeto de educação, que nesse momento uma nação que será sede olímpica necessita.


José Cruz – Qual a alegação do COB para proibir a circulação do livro?

Katia – A alegação do COB é que não posso fazer uso do termo "olímpica", adjetivo e substantivo que pertencem ao COB. Sabendo das limitações do uso dos símbolos olímpicos, tomei, juntamente com o ilustrador, todos os cuidados para que os anéis ou qualquer outro símbolo não fosse utilizado indevidamente. A capa do livro mostra que lidamos com essa limitação. Mas o processo é por causa disso.


José Cruz – Como você avalia tal decisão?
Katia
– Essa decisão é arbitrária porque não temos materiais sobre educação olímpica e há uma demanda nacional por parte dos educadores para tratar sobre o tema com alunos do ensino fundamental e médio. Esse é o público que desejo atingir com essa obra.


José CruzVocê, inclusive, usou uma linguagem mais de aprendizado, é isso?

Katia – Utilizei todo o meu conhecimento, decodificando da linguagem acadêmica para o grande público, para que esse livro alcançasse o máximo possível de pessoas pensando não apenas na divulgação do olimpismo, caminho que já trilho há mais de ma década dentro da universidade, mas na preparação dessa nação para receber os jogos, seja como voluntários, seja como pessoas ligadas aos diferentes serviços que trabalharão recepcionando turistas, atletas, árbitros, imprensa, etc.


José Cruz – E sua publicação se torna mais valorizada por ter o aval acadêmico...
Katia
– Como fiz meu pós-doutorado no Centro de Estudos Olímpicos da Universidade Autônoma de Barcelona sei o que é ter a universidade como parceira na promoção e divulgação dos estudos olímpicos em um país e cidade que serão sede olímpica. É algo emocionante entrar em uma biblioteca e ver diferentes autores, de diferentes abordagens teóricas e conceituais escrevendo sobre história, economia, sociologia, filosofia, educação, psicologia e tudo o mais que tiver relação com esse mega-evento.


José CruzE essa é uma das funções acadêmicas...

Kátia – Nossa função na universidade é essa: observar algo que ocorre na sociedade e analisá-lo, discuti-lo e buscar respostas, alternativas e soluções para as questões que serão levantadas a partir dele. Esse é o meu papel como pesquisadora. Essa é a intenção dessa obra."

Censura olímpíca


A coisa anda meio devagar por aqui esse ano.

Mas a carta da Profa. Kátia Rubio, da USP, publicada site Centro Esportivo Virtual e reproduzidos hoje no no Blog do Juca, sobre a grotesca censura sofrida sobre seu novo livro "Esporte, Educação e Valores Olímpicos".

O censor foi o COB, alegando que o termo "olímpico", e tudo relacionado a ele, são de propriedade exclusiva da entidade.

Nuzman e sua gangue não têm mais limites.

Haverá algum para a farra do Rio-2016?

"Proteste você também

PELO DIREITO OLÍMPICO DE SE ESTUDAR E PESQUISAR ESTUDOS OLÍMPICOS NO BRASIL

POR KATIA RUBIO, professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo

Desde que ingressei na Universidade de São Paulo como docente fui posta à prova em um processo seletivo, três concursos, além das bancas de mestrado, doutorado e livre docência.

Essa é a razão de ser da vida acadêmica. Sem contar na participação dos inúmeros editais que concederam auxílios ou bolsas aos projetos de pesquisa que desenvolvo. Com isso quero dizer que estou acostumada a ser avaliada e julgada de forma quase que ininterrupta há muitos anos.

Penso que aceitei o desafio da vida acadêmica porque fui criada e educada dentro do esporte. Aprendi ao longo da minha vida esportiva que o sucesso é o resultado de um processo que envolve dedicação, disciplina, determinação e que perder e ganhar faz parte do jogo. Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar, já cantava Elis. Tive a felicidade de contar com excelentes professores e técnicos que apontavam a todo instante a fundamentação ética dessa atividade, sem necessariamente evocar essas palavras.

Talvez venha daí o meu compromisso como pesquisadora e educadora: tive grandes mestres que adotaram uma pedagogia mimética e me inspiraram a fazer o mesmo.

Quando me dediquei ao estudo, ensino e pesquisa da Psicologia do Esporte e dos Estudos Olímpicos os fiz porque tinha a convicção da importância que esse fenômeno representa para a sociedade. Isso não é nenhuma novidade, uma vez que Thomas Arnold, no século XIX já havia observado essa possibilidade na sociedade inglesa da época e pautando-se nessa convicção fundou a Rugby School. Dessa experiência pedagógica resultou a obra Tom Brown’s Schooldays. Hughes foi aluno de Thomas Arnold na escola de Rugby, marco da institucionalização do esporte nas escolas inglesas, e na obra Tom Brown’s relatou de forma romanesca e apaixonada o cotidiano e as preocupações de uma pedagogia pelo esporte. Essa foi uma das obras que inspirou o Barão Pierre de Coubertin a edificar seu ideário olímpico, tema central dessa manifestação.

O estudo do fenômeno olímpico me inspira de diferentes formas, seja por seus aspectos macro que envolve a história, bem como as questões sociais e filosóficas, até seu âmbito mais específico relacionado basicamente à psicodinâmica do atleta e das equipes esportivas. Entendo que reside na compreensão desse continun – sujeito-sociedade – o sucesso de uma intervenção que não é apenas clínica, mas essencialmente social.

Vejo "milagres" sociais serem operados por meio do esporte, e não apenas o olímpico, mas afirmo que é o esporte olímpico que fornece muitos grandes exemplos para que milhões de crianças desenvolvam o desejo do vir a ser. E é nisso que eu aposto minhas fichas, minha energia de vida e meu vigor acadêmico: no estudo do fenômeno olímpico e em suas reverberações em diferentes indivíduos, sejam eles crianças ou adultos, que se refletirão nos movimentos da sociedade de forma mais ampla.(...)

(...)Há anos estamos trabalhando na realização de projetos de educação olímpica em consonância com o pensamento de Pierre de Coubertin. Pensei que a realização dos Jogos Olímpicos no Brasil fosse o momento oportuno e privilegiado para multiplicarmos essas ações que já ocorrem dentro de uma perspectiva de educação não-formal e informal. Nós da área acadêmica temos essa estranha mania de ter fé na vida e acreditar em coisas improváveis ou mesmo impossíveis.

Na última quinta-feira, 28 de janeiro de 2010 tomei contato com um documento do Comitê Olímpico Brasileiro que me informa que devo recolher o livro Esporte, educação e valores olímpicos. Essa notícia além de me surpreender me causou enorme espanto por conta das alegações utilizadas para tal. Conforme o documento "o uso dos termos ‘olímpico’, ‘olímpica’, ‘olimpíada’, ‘Jogos Olímpicos’ e suas variações… são de uso privativo do Comitê Olímpico Brasileiro no território brasileiro."

Voltamos ao tempo da Inquisição onde apenas os iniciados poderiam fazer parte dos mistérios e os livros e publicações indexados deveriam ser expurgados impingindo aos descuidados o calor das chamas das fogueiras? É sempre bom lembrar que Hitler também fez suas escolhas de obras indexadas e termos permitidos.

O livro Esporte, educação e valores olímpicos foi gestado muito antes do anúncio da candidatura do Rio de Janeiro, uma vez que não tínhamos em nosso país nenhuma obra dedicada aos jovens para tratar do tema Olimpismo. Criei também um guia didático para uso dos professores em sala de aula apontando como usar o material como tema transversal, aproximando assim nossa tão desrespeitada educação física escolar de disciplinas "nobres" como a língua portuguesa, história, geografia, biologia etc.

Como diria Luther King "I have a dream" e continuarei a tê-lo, independente da ação do COB. Meu sonho continua vinculado ao país que tenho e ao país que desejo ter, e como o esporte pode contribuir para essa realização.

Publicar livros é dever de ofício de pesquisadores, principalmente das ciências humanas, e esse último é mais um entre os muitos que ainda pretendo publicar sobre o tema olímpico. Tenho um livro no prelo sobre as Mulheres Olímpicas Brasileiras. Que faço diante disso? Nomeio o inominável ou deixo que pisem as flores de meu jardim como no poema em homenagem a Maiakovsky?

"[...]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]"

Conto com o apoio de todos aqueles que estudam, pesquisam, ensinam e publicam sobre Olimpismo, Educação olímpica, Valores olímpicos, Ideais olímpicos, Imaginário olímpico, os deuses olímpicos não atletas, os heróis olímpicos de hoje e da Antiguidade para que essa forma de censura não se abata sobre nossas produções, para que prevaleça a liberdade de pesquisa e de expressão e para que o conhecimento possa chegar a toda a sociedade, saindo dos círculos restritos da universidade e contribuindo para uma sociedade mais justa e um país melhor.

Se de alguma forma essa notícia também lhe causa perplexidade escreva para:

carlos.nuzman@cob.org.br

andre.richer@cob.org.br

presidência@cob.org.br

e manifeste sua opinião.

A Família Olímpica

POR GUSTAVO PIRES, professor da Universidade Técnica de Lisboa

Há pessoas que no âmbito do Movimento Olímpico se julgam no direito de decidir quem pode e quem não pode dedicar-se ao estudo e à investigação das questões do Olimpismo. Na sua profunda ignorância e pesporrência estão convencidos que são proprietários de algo que os transcende. Quer eles queiram quer não, o Olimpismo é propriedade da Humanidade e não de uma qualquer casta que numa atitude profundamente xenófoba se gosta de chamar a si própria de "família olímpica".

Em Portugal, os dirigentes do Comité Olímpico de Portugal (COP) também se julgavam no direito de decidir quem podia ou não utilizar as palavras olímpico, Olimpismo ou, entre outras, Jogos Olímpicos, convencidos de que eram proprietários não só dos conceitos em si, como das próprias palavras que pertencem, como qualquer pessoa de bom senso sabe, à língua portuguesa e aos seus falantes.

Em conformidade, pretenderam acabar com uma organização de seu nome Fórum Olímpico de Portugal.

Para o efeito, contrataram um dos maiores escritórios de advogados do país mas o tiro saiu-lhes pela culatra.

Os Tribunais portugueses decidiram que a lei não lhes concedia o monopólio do uso das palavras pelo que o Fórum Olímpico de Portugal continua de boa saúde a produzir conhecimento na área do Olimpismo.

Entretanto, tomamos conhecimento que o Comité Olímpico Brasileiro (COB) quer obrigar uma investigadora da Universidade de São Paulo de seu nome Kátia Rúbio que investiga e publica há vários anos sobre a problemática do Olimpismo, a recolher o seu último livro intitulado "Esporte, Educação e Valores Olímpicos"! Tal como cá, os caras lá do Brasil também se julgam proprietários das palavras olímpico, olímpica, olimpíada, Jogos Olímpicos e suas variações...!!!

Há uns anos, tivemos a oportunidade de assistir no Rio de Janeiro a uma conferência sobre Olimpismo proferida precisamente pelo presidente do COB.

O que a generalidade das pessoas no fim da conferência comentou foi que o cara falou de dinheiro, de muito dinheiro, de marketing, de investimentos e de todos os termos possíveis e imaginários na área económica e financeira, contudo, ninguém o ouviu falar de Olimpismo, de valores do desporto, de educação ou de desenvolvimento humano.

O problema é que, como a generalidade dos dirigentes do Movimento Olímpico não fala sobre o Olimpismo e os seus valores, quer obrigar os outros a fazer o mesmo.

Não poderá Lula da Silva meter o sujeitinho na ordem.

Em Portugal foram os Tribunais através dos doutos acórdãos dos juízes que o fizeram.

O processo pode ser consultado em: www.forumolimpico.org

Veja mais em http://cev.org.br/, de onde este blog extraiu os dois escritos acima."