terça-feira, 15 de julho de 2008

No mesmo time?

Eu acredito.

Brasileiros na Eurocopa


Esse ano, jogadores brasileiros não só jogaram a Eurocopa como também a ganharam.

Mas não foi só dentro de campo que os brazucas deram o ar de sua graça.

Segue abaixo, com grande satisfação, o relato do André Brito, boleiro e amigo de primeira, que foi à Áustria e Suíça e conta um pouco como foi a festa.

"TIME TO MAKE FRIENDS, VOLUME II

O slogan ‘tempo de fazer amigos’, que ficou famoso na Copa do Mundo da Alemanha em 2006, certamente poderia ser aplicado ao fantástico evento após 2 anos depois da Copa, a Eurocopa realizada nos países da Suíça e Áustria.

Mais uma vez, a tônica da competição foi o ambiente criado para assistir aos jogos. Em cada cidade sede, oito no total, sendo quatro cidades na Suíça (Berna, Basiléia, Genebra, Zurique) e quatro na Áustria (Innsbruck, Klagenfurt, Salzburgo e Viena), foi montada uma estrutura que permitia que o público sem ingresso pudesse ver os jogos nas praças públicas, munidas de telões (em Viena vi pelo menos 6 deles) e toda a estrutura alimentícia, sanitária etc. Os locais eram chamados de FanZone (na Copa eram chamados de FanFest). Era impressionante ver as cidades (em sua grande maioria cidades pequenas, de 150.000 habitantes) simplesmente tomadas pelas torcidas dos times que lá fariam os seus jogos; o clima da véspera do jogo, a ‘provocação’ saudável são contagiantes. A torcida holandesa era um show a parte: com sua cor laranja marcante, invadiu Berna durante a primeira fase, nem as estátuas da cidade eram poupadas, também vestiram laranja! E as fontes da cidade tiveram sua cor branca e límpida transformadas para o laranja. Invasão esta no melhor sentido da palavra, já que em nenhum momento em Berna (nem em nenhuma outra cidade) presenciei alguma cena de violência, no maximo ânimos exaltados pelo calor do jogo, pela dor de uma derrota. Nada mais que isso. Ponto positivo: a polícia de ambos os países, extremamente bem preparadas para lidar com as multidões, impondo respeito mas ao mesmo tempo ganhando simpatia da torcida; tiravam fotos, os mais animados policiais até pintavam bandeiras dos países nos rostos. Tudo num clima de muito respeito. A torcida da Croácia também marcou presença em Viena, na semifinal fatídica contra a Turquia, os suecos tomaram Innsbruck, o que dizer então dos portugueses em Genebra. Fica muito claro como o conceito do jogo para eles é diferente, como está muito mais relacionado ao entretenimento (como ir a uma ópera, a um teatro), agregando um forte condimento que é a paixão por este esporte. Os jogos, certamente, ficaram por muitas vezes em segundo plano.

O mais interessante é que as diferentes torcidas viajavam milhares de quilômetros para ver os jogos em praça pública! Sim, a questão dos ingressos continua sendo um tema complicado e complexo. Estádios pequenos em ambos países (média de capacidade de 30, 35 mil) contribuíram para o aumento da demanda por ingressos. Os preços para as primeiras duas rodadas do torneio no mercado negro ultrapassavam os 500 euros. Para se ter uma idéia, esse era o preço de uma quarta de final entre Brasil e França na Copa.

Outra questão era a falta na maioria das cidades de voluntários em pontos estratégicos e de sinalização adequada de estacionamentos para vans, motorhomes. Dado o elevado número de turistas motorizados que chegavam nas cidades, principalmente na véspera e no dia dos jogos, era de se esperar uma melhor sinalização de estaciomentos, vias fechadas próximas ao estádio etc.

Depois de 3.300 km percorrendo as oito cidades, fica a certeza de ter vivenciado um evento tão expressivo quanto a copa do mundo, tendo o jogo em si sido apenas uma pequena porção de tudo que se respirava ao redor desta bem sucedida competição."

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A vida continua

Desde antes de acabar o jogo ontem, já tinha pensado em nomear esse post como 'Maracanazzo Tricolor', caso o Fluminense perdesse. Mas mudei de idéia visto que boa parte da crônica esportiva teve o mesmo raciocínio.

Na verdade, nem vou me demorar muito aqui. Não vi nenhum jogo desta Libertadores desde o dia 21 de maio, por motivios que já expressei na ocasião, e não seria justo agora escrever linhas e linhas sobre a desgraça alheia. Mas, por outro lado, um blog que se propõe a falar sobre o esporte brasileiro não poderia calar-se após uma final de Libertadores envolvendo um time brasileiro - ainda mais depois de uma final como a de ontem.

Não me lembro de uma Libertadores mais sensacional do que a de 2009, com um time com uma campanha tão sensacional como a do Fluminense, e com um desfecho tão sensacional como o confronto contra a LDU. É inegável que o Tricolor merecia - ou mereceria - ser o campeão, mas também é injusto tirar os méritos da LDU.

Diante da catástrofe do Maracanã de ontem, alguns pontos merecem nota:

- A linha entre confiança e soberba é tênue, e o Flu parece tê-la cruzado;

- É muito arriscado, no futebol, fazer uma aposta única tão alta desse jeito. O Santos em 2007 fez de tudo para vencer a Libertadores, perdeu e no processo torrou a fundo perdido os últimos reais que ainda tinha da venda do Robinho. O Fluminense foi dormir como quase campeão da América e acordou como pior do Brasil. Além de carregar a lanterna do Brasileirão, vai ter que conviver com a provável venda de alguns jogadores importantes e as restrições impostas pelas dívidas que se acumulam nas Laranjeiras;

- A campanha foi linda. Eliminou o São Paulo nos acréscimos, passou pelo Boca sem perder e reverteu um placar improvável na final. Mas vejamos: nos quatro jogos que fez em casa desde as oitavas-de-final, o Flu jogou 390 minutos, dos quais esteve classificado para a próxima fase por apenas 176. O time soube aproveitar o fato de ter tido a melhor campanha na 1a fase e da "vantagem" de poder decidir sempre em casa, só que também abusou da sua capacidade de correr atrás do resultado. Raça e vontade contam demais em uma Libertadores, mas para tudo tem um limite.

Não torci para o Fluminense. Mas confesso que, ao ver a imagem de inúmeras crianças chorando no ombro dos pais após o jogo, me sensibilizei.

Afinal, eu também fui uma criança que, há quase exatos 14 anos, chorou pelo mesmo motivo.

domingo, 29 de junho de 2008

Estocolmo, Suécia, 29/06/1958 - Brasil 5 x 2 Suécia




“Na Hungria, caíam fuzilados Imre Nagy e outros rebeldes de 56, que tinham querido democracia em vez de burocracia, e no Haiti morriam os rebeldes que tinham se lançado contra o palácio onde Papa Doc Duvalier reinava rodeado de feiticeiros e verdugos. João XXIII, João o Bom, era o novo Papa de Roma, o príncipe Charles era sacramentado como futuro rei da Inglaterra. Barbie era a nova rainha das bonecas. João Havelange conquistava a coroa brasileira no negócio do futebol, enquanto na arte do futebol um rapaz de dezessete anos chamado Pelé, consagrava-se rei do mundo.”Eduardo Galeano, Futebol ao Sol e à Sombra

Em Mianmar, outrora Birmânia, milhares morrem afogados e de doenças por culpa da natureza e de uma ditadura escrota e inconseqüente, e bem perto dali, outra ditadura comemora 20 anos de um massacre de estudantes com os Jogos Olímpicos. Roma ainda tem sua influência, mas Meca se insurge contra os infiéis. Diana já morreu, mas eis que aparece Carla Bruni. As meninas não brincam mais de boneca, mas sabem a ‘Dança do Créu’ de cor. João Havelange deixou de lado a coroa brasileira e mundial no negócio do futebol, mas não sem antes encher bem os bolsos e deixar um “herdeiro”. Pelé, mesmo com sua desastrosa vida pessoal, continua sendo o Rei do Futebol, cargo cada vez mais fadado à vacância eterna. E a Seleção Brasileira, que em 1958 teve Nilton Santos, Didi, Pelé e Garrincha jogando juntos, hoje é escalada com cinco volantes – quatro em campo e um de técnico .

Do 4-2-4, JK e KGB ao 3-6-1, PT e Al-Qaeda, o mundo mudou bastante em alguns aspectos; em outros, continua quase igual.

O que não muda é a grandiosidade do feito de 1958.

sábado, 28 de junho de 2008

Complexo de vira-latas

por Nelson Rodrigues

"Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: - "O Brasil não vai nem se classificar!". E, aqui, eu pergunto: - não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse "arrancou" como poderia dizer: - "extraiu" de nós o título como se fosse um dente.

E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: - é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: - o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: - se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: - o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, "não". Mas eis a verdade: - eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: - sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: - não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: - qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: - temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de "complexo de vira-latas". Estou a imaginar o espanto do leitor: - "O que vem a ser isso?". Eu explico.

Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos "os maiores" é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: - e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: - porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: - o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: - para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão."

Publicado originalmente na Revista Manchete Esportiva, em 31/05/1958

terça-feira, 24 de junho de 2008

Vasco da Gama, D.E.

Eurico Miranda caiu. Ou caíram com ele. Ou talvez ainda não tenha caído de verdade.

O fato é que ele não será mais o Presidente do Vasco da Gama. Ótima notícia tanto para vascaínos como para o futebol brasileiro.

Algumas vozes clamam pelo resgate da dignidade do clube, após décadas de domínio deste se Eurico, como se tudo de podre e corrupto que rondou São Januário nas últimas décadas fosse culpa, direta e exclusiva, do seboso dirigente.

Será? Me permito a dúvida, pois é fato que:

1) Ninguém fica no poder tanto tempo sem contar com significativo apoio de seus pares;

2) Ninguém é eleito "Deputado do Vasco" sem contar com alguns milhares de votos de vascaínos;

3) Não me lembro de nenhum vascaíno denunciar a "aventura olímpica" protagonizada pelo clube no final dos anos 90, que serviu apenas para inflar o ego e encher os bolsos de Eurico;

4) Também não me lembro de um vascaíno sequer expressar vergonha pelas atitudes de seu dirigente máximo, enquanto dentro de campo o time conquistava títulos importantes.

Essa é máxima do futebol na terra do jeitinho: não importa como, o que importa é ser campeão.

É curioso que as vozes contra Eurico Miranda se façam ouvir justamente quando a força tanto dele como do próprio Vasco, no cenário do futebol brasileiro, estejam em franca decadência.

Para mim, é impossível separar do dia para a noite a imagem do Vasco da de Eurico, pois sempre que a Cruz de Malta me vem à cabeça, traz junto a imagem grotesca do dirigente, ao melhor estilo Jabba the Hut. Torço de verdade para que Dinamite e seu grupo consigam trazer a tal dignidade ao Vasco. Mas, para que essa dignidade também me transmita simpatia, talvez leve alguns anos.

sábado, 21 de junho de 2008

Cidade do México, México, 21/06/1970 - Brasil 4 x 1 Itália

Com a palavra, os inventores do jogo:

“No campo da cultura popular, o mundo era americano ou provinciano. Com uma exceção, nenhum outro modelo nacional ou regional se estabeleceu globalmente... A única exceção foi o esporte. Nesse setor de cultura popular – e quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à sua condição de arte? – a influência americana permaneceu restrita à área de dominação política de Washington.”Eric Hobsbawm, Era dos Extremos

“De certa forma, o Brasil estragou a festa de todos nós. Aquele time revelou uma espécie de ideal platônico que ninguém, nem os próprios brasileiros, seria capaz de atingir novamente; Pelé pendurou as chuteiras, e nas cinco Copas subseqüentes eles só mostraram pequenos lampejos daquele futebol de assento-ejetável, como se 1970 fosse um sonho semi-esquecido que um dia tiveram de si mesmos. Lá na escola, sobraram-nos as coleções de moedas da Copa do Mundo Esso e um ou outro drible vistoso para tentar imitar; mas não conseguíamos nem chegar perto, e acabamos desistindo.”
Nick Hornby, Febre de Bola

terça-feira, 17 de junho de 2008

Santiago, Chile, 17/06/1962 - Brasil 3 x 1 Checoslováquia

Junho é um mês fantástico para o futebol brasileiro.

Nele, ganhamos nossas três Copas mais bonitas.

Por isso, inicio agora uma série comemorativa de posts sobre essas três conquistas.

A Copa de 1962 parece ser, dentre as três primeiras, aquela que nos traz menos emoções. Sofre da famosa "Síndrome do Filho do Meio": não tão festejado como o primogênito, nem tão mimado quanto o caçula.

Pura injustiça.

Essa foi a Copa em que até o Chile torceu para o Brasil.

A Copa da malandragem de Nilton Santos.

A Copa de Mané Garrincha.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

As verdadeiras estrelas

Chupa

"Como ele pode deixar a suposta estrela do time fora? A estrela tem de estar na quadra."

Sabendo que a frase acima foi dita por uma jogadora da Seleção Brasileira de basquete feminino, alguém poderia pensar em Paula, Hortência, ou até Janeth.

Mas não.

(Até porque, mesmo sendo estrelas, Paula, Hortência ou Janeth nunca tiveram tal postura.)

Ela foi dita por Iziane.

Quem?

Iziane, a suposta sucessora de Janeth. Uma jogadora que ainda não fez nada - se é que um dia irá fazer - pela Seleção, é desconhecida por aqueles que não acompanham o esporte mais de perto, mas que segundo sua própria definição já é uma estrela.

O desrespeito ao técnico não é condizente com o comportamento de uma estrela - ainda mais em um momento importante como o jogo contra a Bielo-Rússia. Estrelas não se impõe por sua palavras, mas por seu jogo; não reivindicam essa condição, mas esta lhes é dada pelos demais, por suas habilidades e atitudes.

Coisas que Iziane mostrou que não tem.

O basquete feminino, mesmo com toda a falta de apoio e interesse, vai a sua quinta Olimpíada consecutiva. Ainda vemos raça e vontade nas jogadoras, coisa que falta na seleção masculina se perdeu em meio aos demandos da CBB e dólares da NBA. Atitudes como a de Iziane merecem punições exemplares como a recebida pela jogadora, para que se preserve, pelo menos no feminino, resquícios da vitoriosa história do basquete brasileiro.

Às meninas da Seleção Brasileira, parabéns.

E CHUPA Iziane. Vai ver Pequim pelo Sportv.