terça-feira, 26 de junho de 2007

Ditaduras esportivas II - A Missão

As notícias veiculadas semana passada, a respeito de confusões nas convocações de atletas para o Pan em algumas modalidades me fez retomar o assunto sobre a gestão das entidades esportivas no Brasil. Especificamente, esses problemas ocorreram nas seguintes modalidades:

- Hipismo: as vagas na equipe estão sendo decididas na Justiça, devido a indefinições e mudanças no critério de seleção dos atletas. A liminar do cavaleiro Vítor Alvez Teixeira foi cassada ontem e o caso continua sem definição.
- Esgrima: testes de corrida tiraram do Pan os líderes do ranking nacional da espada feminina e do sabre masculino. A prova em questão era correr 3 mil e 2,5 mil metros em 12 minutos nas categorias masculino e feminino, respectivamente.
- Ciclismo: os tempos das seletivas não foram divulgados, e entre os convocados está o filho do técnico da seleção.
- Hóquei sobre grama: denúncias contra o ex-técnico da seleção (filho do presidente da confederação) levaram à dissolução das equipes permanentes, fazendo com que as seletivas fossem realizadas com jogadores inscritos pela internet.

Fui pesquisar os sites destas confederações, e o resultado não foi muito diferente do esperado. Apenas o site da Confederação Brasileira de Hipismo disponibiliza informações sobre a história e Diretoria atual da entidade (ainda assim incompletas). Considerando que atualmente a internet é um dos principais veículos de comunicação existente, é inconcebível que informações desse tipo não estejam ao alcance do público. Mostra incompetência na gestão ou falta de vontade em realizar algo tão simples.

Aproveitei para extender a pesquisa a outras confederações brasileiras. Me concentrei no ponto que julgo crucial na questão da gestão dessas entidades, que é o tempo em que os atuais Presidentes estão no poder. Abaixo, seguem os dados que apurei das principais confederações brasileiras:

- Confederação Brasileira de Basquete (CBB): Gerasime Bosikis, o "Grego", comanda a entidade desde 1997.
- Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt): o Presidente é Roberto Gesta de Melo, desde 1987.
- Confederação Brasileira de Vôlei (CBV): Ary da Silva Graça Filho que sucedeu, em 1997, Carlos Arthur Nuzman, que por sua vez estava no cargo desde 1975 (de 95 a 97, Walter Laranjeiras substituiu Nuzman, devido a sua posse no COB).
- Confederação Brasileira dos Desportos Aquáticos (CBDA): Coaracy Nunes, desde 1988.
- Confederação Brasileira de Tênis (CBT): Jorge Lacerda da Rosa substituiu o polêmico Nelson Nastás em 2004.
- Confederação Brasileira de Ginástica (CBG): Vicélia Florenzano é a Presidente desde 1991.
- Confederação Brasileira de Futebol (CBF): dirigida a mão de ferro por Ricardo Teixeira desde 1989.
- Comitê Olímpico Brasileiro (COB): Nuzman, desde 1995.

Me concentrei em dados objetivos pois seria leviano da minha parte julgar os trabalhos individuais sem realmente conhecê-los em profundidade. Bons resultados são encontrados também em mandatos longos. Não seria certo dizer, por exemplo, que o mandato de 20 anos do Nuzman à frente da CBV foi ruim. Nesse período tivemos uma revolução na modalidade e a conquista de duas medalhas olímpicas. A natação e esportes aquáticos em geral também apresentaram resultados expressivos e uma aparente solidez nas últimas décadas.

Por outro lado, encontramos exemplos ruins. No basquete, nomes como Oscar, Paula e Hotência contestam a gestão do Grego. Casos como os citados no início deste texto sugerem decisões mal tomadas, talvez até propositadamente. Foi preciso um boicote do Guga para mudar a direção da CBT, e aqui temos um dado interessante. De 1955 até 1994 a entidade teve 14 Presidentes, uma média de 2,6 anos por mandato. O problema surgiu justamente no décimo ano de mandato de Nelson Nastás (94-04). Coincidência? Acho que não.

Para finalizar, temos os casos mais famosos do futebol e do COB. Ricardo Teixeira, que segundo dizem odeia futebol, chegou onde está por ter se casado com a pessoa certa, na hora certa: a filha de João Havelange, ex-Presidente da CBD e na época Presidente da FIFA. Se foi no mandato de Teixeira que ganhamos duas Copas do Mundo, também foi neste período que vimos despencar a qualidade do futebol jogado dentro do Brasil e do interesse geral pela própria Seleção, quebrado apenas a cada quatro anos. E pelo andar da carruagem, teremos de conviver com o genro pródigo até pelo menos 2014.

Nuzman também não dá sinais de cansaço. Após 12 anos, mostra disposição para torrar bilhões dos cofres públicos no Pan e ainda insistir no seu projeto megalomaníaco-narcisista-surrealista do Rio Olímpico, agora planejado para 2016.

(Tanto 2014 como 2016 dependem muito de 2007. Para que devemos torcer no próximo mês?)

Falei, falei e chega a hora de concluir. Sem acompanhar de perto, é difícil e até irresponsável criticar o trabalho dos nossos dirigentes. Mas, conversando com pessoas ligadas de perto à entidades, as irregularidades jorram como petróleo na Arábia. Esses mandatos longos podem ser tanto benéficos como prejudiciais para as modalidades esportivas. Porém, além de estabelecer metas, gerir o dinheiro, buscar patrocínios, trabalhar com a base e desenvolver o esporte, também é obrigação de cada dirigente preparar a sua sucessão. Não fazendo - ou não querendo fazer - essa função, dirigentes comprometem o seu próprio trabalho, e por tabela o esporte de modo geral.

Pessoas passam, as entidades ficam. Sem uma sucessão bem planejada, vícios tendem a se perpetuar e boas idéias, a caírem em desuso. Exemplos para isso não faltam, basta pesquisar.

3 comentários:

Anônimo disse...

Bola, sensacional. Texto mto bem escrito e que mostra algo que está aí a tanto tempo e poucos se mexem de verdade para mudar algo.
Parabéns!

Anônimo disse...

E você poderia me dizer quem assumiria e não tiraria partido pessoal, político ou financeiro ? Sócrates ? Juca K. ? Oscar ? Tudo "acima" de qualquer suspeita. Lamentavelmente, isso nunca vai mudar.

Fabio Pimentel disse...

Se até no Congresso existem pessoas sérias, é de se supor que no esporte isso também seja possível. Ex-atletas podem ajudar, desde que sejam preparados pata tal. Mas a reforma administrativa no esporte é imperativa - na verdade, no Brasil todo.